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Sobre o nascimento do SSC e as confusões com relação à aplicação deste termo no BDSM (S/M) contemporâneo

 

 

 

 

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Por Érica Araújo e Castro

 

Como interessada no mundo BDSM há anos e pesquisadora do tema, especialmente tendo por base a literatura produzida por grupos como os Leatherman, GMSMA (Gay Male S/M Activists) e por autores como Jay Wiseman, Ambrosio, David Stein e outros, tem me incomodado a forma como más traduções e o desconhecimento da trajetória do SM (que hoje convencionamos chamar de BDSM) levam a praticantes desinformados e de comportamento temerário.

Obviamente que não farei uma generalização. Possuímos no Brasil grandes praticantes, renomados, de quem ninguém poderia desclassificar a postura como antiética ou temerária. Há os que empreendem esforço educacional visando uma espécie de direcionamento para os novatos, tanto para que estes consigam determinar como e onde encontrar a satisfação de seus desejos, quanto para evitar que caiam nas mãos de maus praticantes colocando a si mesmos em risco.

Não trato destes.

Antes, refiro-me a aqueles que, tendo como base única a tradição oral, que permeia mais o meio brasileiro que a tradição baseada na literatura internacional, mimetizam comportamentos a princípio classificados como BDSM, mas sem preocupar-se em sequer entender o que, de fato significam as siglas que usam – quem dirá aplicá-las segundo foram pensadas. Estes limitam-se a reproduzir continuamente o que é falado informalmente (seja em conversas de bar, seja escrito em fóruns/grupos de discussão na internet), sem preocupar-se em garimpar literatura e dedicar-se ao conhecimento histórico e social do SM e suas implicações, crenças, costumes, tradições – enfim, seus significados implícitos e explícitos.

Os erros permeiam coisas complexas, mas iniciam-se desde as coisas mais básicas como classificar a sigla BDSM como acrônimo – erro este que credito às traduções informais feitas por adeptos que versaram erradamente a palavra “acronym” por acrônimo e não sigla, no caso de letras consecutivas soletradas – e não lidas como palavras.

Com relação aos erros históricos, exemplifico: como uma dentre os moderadores do maior grupo BDSM do facebook não raro me deparo com postagens de pessoas que se identificam como experientes e letrados no universo BDSM mas que questionam, por exemplo, a aceitação de gays no meio. Tal disparate, vê-se logo, somente pode ser enunciado por quem desconhece que a origem do S/M deu-se com veteranos gays da Segunda Guerra Mundial que formaram grupos hoje denominados como “Old Guard” que tinham por objetivo o exercício da sexualidade com práticas sádico-masoquistas, da maneira crua e dura que haviam experimentado durante o esforço de guerra.

Dali surgiram os “leathermen” e também originaram-se grupos ligados à liberdade – não apenas sexual, mas também de movimento, como os motociclistas. É interessante quando se percebe isto e vê-se como muitas coisas da cultura gay SM estão presentes no motociclismo até hoje: o uso do couro, das botas e da hierarquia militar com regras de aceitação e protocolos de comportamento. Vê-se que não é mera coincidência, mas antes a consequência do fato de que a origem destes movimentos está entrelaçada.

Desta forma, os heterossexuais é que foram inserindo-se em um movimento que se iniciou como gay – e não o contrário. Obviamente, o BDSM como um todo já há um longo tempo deixou de ser algo exclusivamente gay, entretanto, deve-se muito a estes agrupamentos, inclusive a cunhagem do termo SSC (Safe, Sane Consensual (Seguro, São e Consensual)) – tríade sacrossanta do BDSM e, talvez, a que mais gera confusões e que mais sofre alterações e aplicações indevidas.

Originalmente, o termo surgiu em uma reunião do GMSMA, grupo co-responsável em grande parte pelo respeito adquirido pelo BDSM nos Estados Unidos. David Stein, bottom presente nesta reunião de 1983 e a quem é atribuída a cunhagem do termo, diz que o uso de “safe, sane” era algo corrente e totalmente inteligível para a sociedade americana da época. Por exemplo, as crianças eram instadas a brincar o quatro de julho de uma maneira “safe and sane”.

Stein acrescentou o “consensual” às duas palavras e foi o primeiro que colocou as três juntas em um contexto referindo-se ao BDSM.

Assim é interessante entender o que ele, pessoalmente quis dizer, assim como é imprescindível compreender o que o próprio grupo quis dizer com o uso e divulgação desta tríade.

Ele informa em seu artigo “Safe, Sane Consensual – the making of a shibboleth” (Seguro, São e Consensual – a construção de um xibolete) que, primordialmente, ao pensar nestas três palavras juntas, ele queria separar o SM do qual ele queria, pessoalmente, fazer parte, do que ele não queria. Antes de tudo, a tríade deveria ser usada para propor um limite razoável para a prática estabelecendo os princípios éticos sobre os quais assentar-se-iam quaisquer ações razoáveis.

Stein continua dizendo que o que eles quiseram dizer com o “safe” (seguro) do SSC foi a prática SM oposta de “negligente, irresponsável e desinformada”. Ou seja, todos deveriam estar atentos, estudando a técnica a ser usada para que a segurança fosse preservada.

Exemplifico: se a técnica é de bondage – o S de seguro quer dizer que quem vai amarrar vai aprender qual o melhor nó, qual a melhor amarração, qual material, quais os cuidados gerais e específicos que devem ser tomados na cena preparada. Isto impedirá que o bottom tenha, por exemplo, sua circulação cortada por um nó preso demais ou por uma passagem de corda que comprimiu o tecido além da conta.

Stein ainda reconhece que o uso de “sane” e “consensual” foi deixado vago – especialmente pelo entendimento atual de que, por exemplo, é extremamente difícil deixar um parceiro abusivo, o que tornaria o entendimento simplista da consensualidade uma desculpa para comportamento inapropriado, sem a aquiescência real do parceiro.

Porém, sua visão fica mais clara quando recorremos ao exemplo dado por ele sobre o quatro de julho – que ao ver propagandas que diziam que você deveria “brincar seu feriado” de maneira segura e sã, entendia-se que se poderia brincar com fogos de artifício (coisa perigosa) – mas de uma forma que não acabasse explodindo a casa ou ficando sem a mão.

Traçando uma analogia com o BDSM, não fica difícil entender que a aplicação do termo quer dizer, literalmente, não fazer loucuras – algo geral, mas que, quando se tem bom senso quer dizer muito.

Por isso, na visão de seus idealizadores, o SSC serviria como uma base de princípios que nortearia a prática desde dos novatos até dos extremos. Este entendimento básico é o maior mal entendido que se vê – e agora, não apenas no Brasil. Há quem classifique, por exemplo, fetiches como os envolvendo sangue ou excrementos como não-SSC – quando na verdade, eles cabem, sim, dentro da tríade, desde que pensados de maneira que cuidados razoáveis sejam tomados.

Entretanto, não nego que uma das coisas que mais me chamou a atenção em seu artigo certamente foi ele dizer o que NÃO pretendiam quando cunharam o termo. Primeiramente, eles não pretendiam que o termo fosse usado para atacar a todos aqueles que tivessem limites mais expandidos que os seus próprios – como vemos acontecer hoje correntemente.

Não é incomum que vejamos pessoas brandindo o termo SSC quando a defesa ou exposição de uma prática extrema seja feita em grupos ou encontros.

É interessante perceber que Stein é bem claro ao afirmar que jamais “quisemos transformar a cena em algo sem risco algum em que a dor não doa de verdade, bondage não seja restritiva e a dominância seja ser ordenado a fazer algo que você quisesse fazer de qualquer maneira.” (STEIN, 2002, pág. 6).

Outro detalhe que ele especificou jamais ter sido objetivado por eles é o uso indiscriminado da sigla SSC como uma desculpa para tudo, como se a mera menção da sigla pudesse eximi-los de responsabilidades.

Sumarizando – apesar do que muitos tentam dizer, o SSC na verdade, estabelece limites éticos para as ações, fazendo com que todos os participantes da cena fossem partícipes na responsabilidade de sua execução.

Assim, se você é adepto do SSS (safe, sane, sensual), RACK (risk-aware consensual kink), RISSCK (risk-informed, safe, sane consensual kink), PCRMs (prática consensual com risco mínimo) – ainda assim será considerado também adepto do SSC se os princípios de cuidado, estudo, responsabilidade estiverem implícitos à sua prática.

Isto é o que eles quiseram dizer. Isto é o que está na literatura.

Fontes:

BALDWIN, Guy. The Old Guard History, Origins and Traditions. In: BALDWIN, Guy. Ties that bind. C. 1990.

STEIN, David. Safe Sane Consensual – the making of a shibboleth. 2002.

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